segunda-feira, 28 de setembro de 2015

ARENA CIBERNÉTICA DOS SENTIMENTOS – Sobre o filme “Mensagem para Você”

Os relacionamentos virtuais e a quase profecia de Nora Ephron





Pode reparar: hoje em dia, quase ninguém utiliza o celular para ligações. Duvido que alguém saiba responder o que significam as siglas DDD e DDI. Tudo por causa da internet. É Facebook, Twitter, Whatsapp, um amontoado de aplicativos virtuais que nos fazem esquecer que a principal função de um telefone móvel é realizar e atender chamadas. Quase ninguém mais vive sem internet, neste mundo inteiramente alicerçado em dados móveis, wi-fi, banda larga, 3G, 4G ou sabe Deus quantos G's existem hoje em dia. Mas, lá pelo fim da década de 1990, para que você fosse “plugado” no mundo virtual, era necessário três coisas: um computador, um telefone fixo e um provedor de internet… discada.


"Mensagem para você"


Quem viveu a época, pode contar: o som da conexão discada, era a trilha sonora da nossa ansiedade, como bem mostra os personagens Kathleen Kelly e Joe Fox, interpretados respectivamente por Meg Ryan e Tom Hanks, logo nas primeiras cenas de “Mensagem para Você”, de Nora Ephron. Numa era pré-qualquer-rede-social, quem reinava no ciberespaço eram os chats, ou salas de bate-papo. Um bando de desconhecidos reunidos sob um tema específico, que variava entre idades e assuntos – a sala “Solteiros” era disputadíssima! – e que tomava horas, horas, HORAS de conversa, pública ou reservadamente, com quantas pessoas você quisesse. Uma profusão de nicknames – apelidos – criativos, e alguns até ridículos, rendeu boas amizades, debates e… namoros. Nora Ephron soube como ninguém, numa época em que a internet ainda engatinhava, captar o impacto que a web causaria na vida das pessoas, com destaque aos relacionamentos pessoais, principalmente os amorosos. Foi quase uma profecia! Qual espectador não se identifica com Kathleen e Joe em meio à troca de e-mails e mensagens instantâneas? Qualquer semelhança com os faces e whatsapps da vida só demonstra o quão certa Nora Ephron estava quando lançou o filme, já quase na virada do século.

Kathleen Kelly é dona de uma pequena loja de livros infantis, a “The Shop Around The Corner” (“A Loja da Esquina”, numa tradução literal), mora num apartamento charmoso e aconchegante no Upper West Side, conhecido bairro de Nova York, e namora Frank Navasky, colunista de um jornal local que é totalmente avesso às inovações tecnológicas. Mal sabe o rapaz que a namorada se rendeu a novidade do momento, a internet, e que ainda por cima, trava correspondência virtual com um homem que conheceu numa sala de bate-papo, o senhor “NY152”. Todos os dias, pela manhã, depois de Frank sair para o trabalho, Kathleen corre para o laptop, conecta a internet, ouve aquele som característico da conexão discada na maior expectativa até ouvir uma voz eletrônica dizer you've got mail (no Brasil, dependendo do provedor, a voz dizia “mensagem para você”, ou “você tem mensagem” – no filme, a internet é da AOL, lembra dela?), para então ler o correio eletrônico enviado pelo amigo virtual, que conta sobre alguma amenidade do cotidiano, como o cachorro. Do outro lado do bairro, temos Joe Fox, herdeiro de um conglomerado de livrarias, a “Fox Books”, que mantém uma rotina semelhante a de Kathleen, travando troca de mensagens virtuais com a senhorita “Shopgirl” e sua paixão pela primavera novaiorquina. Tão longe e, ao mesmo tempo, tão perto, ambos não se conhecem pessoalmente, e mesmo morando no mesmo bairro, sequer se cruzam. Mas isto está prestes a mudar.


Numa era pré-Facebook...
Quem reinava na internet eram os chats.
Ou o ICQ.

A “Fox Books” de Joe Fox abrirá uma filial na mesma rua da “The Shop Around The Corner” de Kathleen Kelly. E a primeira vez que os dois se cruzam, justamente na loja dela, devo dizer, não é nada romântica: não há insigth algum entre Kate e Joe, apenas uma dona de livraria confiante na fidelidade de sua clientela diante da ameaça de tamanha concorrência que, prudentemente, Joe omite fazer parte. Claro que isso renderá mal entendidos! E o que é mais engraçado, é que Kathleen, a “Shopgirl”, só revela seus verdadeiros pensamentos com o amigo “NY152”, sem saber que ele é justamente Joe Fox! Obviamente que ambos não falam no que trabalham, apenas citam que tem negócios – aliás, isso rende cenas para lá de inusitadas. Se em “Sintonia de Amor”, um dos muitos filmes famosos de Nora Ephron (senão o mais), a trama girava em torno de uma cena inesquecível do clássico “Tarde Demais Para Esquecer”, em “Mensagem Para Você” a disputa entre Kate e Joe tem como ponto de partida uma frase do filme “O Poderoso Chefão”. Esqueça Sun Tzu e sua Arte da Guerra, aposente o monge e o executivo. A bíblia dos negócios é a Família Corleone. “'O Poderoso Chefão' tem a resposta para todas as perguntas”, diz Joe “NY152” para Kate “Shopgirl”, “e a resposta para a sua é 'vá para a arena', 'Não é pessoal, são só negócios'”. (e o interessante é que, realmente, “O Poderoso Chefão” tem dessa!). E Kate, claro, leva a citação a sério, sem nem imaginar que a pessoa que ela quer derrubar é a mesma que roubou o seu coração.


"Vá para a arena!", conselho que Kathleen
leva muito à sério na guerra contra Joe.

Uma coisa que acho muito providencial nos filmes de Nora Ephron – que infelizmente faleceu em 2012, vítima de câncer – é a ironia que acompanha a evolução do relacionamento amoroso dos protagonistas. Nada ali e fácil, se apaixonar, amar, assumir tais sentimentos por alguém é uma jornada mais difícil que chegar ao topo do Oiapoque com o 4G funcionando. A internet é a válvula de escape dos personagens, não porque a vida de ambos é sem graça, mas porque eles se sentem livres para extravasar os sentimentos que represam na vida real. Tanto Joe quanto Kathleen vivem relacionamentos frios; Frank, por exemplo, é mais amigo da protagonista do que namorado, e a namorada de Joe, bem… é um porre! Uma viciada em trabalho que só pensa em se dar bem, e que não se importa com ninguém a não ser ela mesma. A ironia reside no fato de que, mesmo se correspondendo há meses, Joe e Kathleen não se dão contam de que se amam; o que era apenas uma troca banal de e-mails entre os seres virtuais “NY152” e “Shopgirl” vai se desenrolando para um sentimento mais forte a medida que as pessoas reais por trás dos nickames cultivam a antipatia um pelo outro. Quando Joe descobre que a “Shopgirl” é Kate, num primeiro momento, ele se deixa levar pela frustração e, sem contar a verdade, provoca-a até ela perder a paciência e revidar de forma cruel – seguindo o conselho que ele mesmo deu para a moça. Joe sente as palavras de Kate como a um tapa, e vai embora dividido, enquanto ela sente que fez algo muito errado e se arrepende profundamente. Sem ter com quem desabafar, ela liga o computador, e envia um e-mail para “NY152” contando o ocorrido, descrevendo seus reais sentimentos. É nesse momento que Joe percebe que ama Kate de verdade, não por ela ser “Shopgirl”, a garota que ama a primavera, mas por ser Kathleen Kelly, a dona da “The Shop Around The Corner” que só deseja manter o negócio de sua falecida mãe, no lugar onde sempre viveu seus melhores momentos. Mas como mostrar isso para o amor de sua vida? Como afirmei antes, nada é assim tão fácil, mas para alguém tão esperto quanto Joe, convencer sua amada de que o homem real é melhor que o virtual não exigirá um esforço hercúleo, apenas uma paciência de Jó – e claro, com a merecida recompensa no final.


"Não chore, Shopgirl."


Trazendo para os dias de hoje, “Mensagem Para Você” é bem datado, com alguns detalhes do ciberespaço que já não têm mais tanto apelo ou se tornou obsoleto. Com as redes sociais, a vida virtual é praticamente parte integrante da real, ainda mais quando as amizades criadas na web seguem firmes por anos. Hoje em dia é muito difícil esconder sua personalidade na rede, como faz Joe em certos momentos do filme; a internet evoluiu bastante, os perfis virtuais praticamente exibem quem você é para quem quiser conhecê-lo, e apesar de algumas vezes surgirem perfis “fakes”, falsos, a realidade, frequentemente, invade o mundo virtual, sempre mostrando que viver de verdade é sempre melhor do que vegetar na frente da tela do computador, tablet ou smartphone. Apesar de ser difícil se desconectar, não devemos substituir a quem realmente somos por quem gostaríamos de ser, tentando passar a mensagem errada só para atrair mais admiradores, mais amigos, mais apaixonados. Kathleen é honesta consigo mesma do começo ao fim, e é isso que encanta Joe, cujo bom humor e compreensão fazem a “Shopgirl” sonhar acordada longe do computador. Como já dito neste parágrafo, a vida real é mais interessante que a virtual, simplesmente porque nos dá a chance de crescer, amadurecer através das experiências que ela proporciona. Isso não quer dizer que, nos dias de hoje, a internet não seja essencial; apenas não deveria nos fazer esquecer de viver. Substituir a Vida.

Claro que a internet tem suas vantagens. O próprio filme mostra isso, apesar disso ficar em segundo plano devido a própria época em que foi lançado, com a web ainda vista como novidade. “Mensagem Para Você”, nas entrelinhas, nos lembra que o Amor é inevitável e se faz presente em vários momentos, como acontece com Kathleen e Joe, revelando que, quando o coração está aberto para tamanho sentimento, não importa o espaço que separe as duas pessoas, sempre haverá algo que as unirá. É só ter a coragem de ir para a arena e lutar pelo que acredita e, principalmente, por quem ama – afinal, se o amor é verdadeiro, nenhuma luta é vã de fato. E essa é a mensagem que Nora Ephron sempre enviou para os espectadores, em todos os seus filmes. Porém, em nenhum isso foi tão aparente quanto em “Mensagem Para Você”… Nenhum Corleone faria melhor!

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